12 de nov de 2017

[Desabafo]: Sobre o câncer e seus males

Aos vinte anos, eu (Simone) tive um câncer no mediastino  linfoma de Hodgkin maligno. Foram inúmeras sessões de quimioterapia e radioterapia, e ler esse relato da atriz Márcia Cabrita, que infelizmente faleceu dessa terrível enfermidade no dia 10/11/2017 (aos 53 anos), é como se eu o tivesse escrito. Que tudo siga em paz e se não for pedir demais, livrai-me do mal, amém. P.S: Brilha no céu, Márcia Cabrita!

***

Eu fiquei gravemente doente. Ao contrário do que muitos fantasiam, não tirei de letra. Não sei o porquê, mas existe uma ideia estapafúrdia de que quem está com câncer tem que, pelo menos, parecer herói. Nãnãninã não! Quem recebe uma notícia dessas não consegue ter pensamentos belos. Bem… eu não conseguia. A cobrança de positividade acabou se tornando um problema. Olhava-me no espelho branca, magrela e de cabelos curtinhos (antes de caírem) e achava que estava pronta para fazer figuração em “A lista de Schindler”. Achava que não tinha chance de sobreviver à cirurgia, só pessoas que não tinham maus pensamentos sobreviviam. Muitas vezes deixei de comprar coisas para mim porque tinha que deixar tudo para minha filha. Bem, se na minha cabeça era esse o pensamento que reinava… Sem chance. 

O mundo moderno é incrível. Tudo é maravilhoso, não existe sofrimento! As separações são sempre amigáveis e sem lágrimas, as mães não têm mais o direito de embarangar e ficar em casa lambendo a cria. Um mês depois estão lindas, magras, com barriga sarada! Os atores não ficam desempregados, estão sempre felizes com um convite que ainda não pode ser revelado! Quimioterapia é moleza! Vem cá, só eu que não moro na Disney? 


[Texto da atriz]: Márcia Cabrita 

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