23 de fev de 2018

SETE COISAS QUE EU NÃO AGUENTO MAIS NO GÊNERO FANTÁSTICO

Eu encontrei esse artigo e achei de grande valia repostá-lo aqui, pois apresenta dicas valiosas. Vem junto conferir! o/



Clichês existem, são reais, estão por toda parte e ninguém está 100% imune a eles. Jhomm Krulgar, o mercenário selvagem do Teatro da Ira não deixa de ser um clichê que eu apimentei com um passado monstruoso e um futuro pior ainda. Um clichê existe porque funciona, mas isso não significa que você precisa usá-lo em sua forma bruta, você deve deturpá-lo, para que ele tenha a sua cara e fuja do que é previsível. Lembrando sempre que mais vale um clichê bem escrito do que uma ideia “inovadora” (com aspas mesmo) mal realizada. Bem, é sempre bom avisar que essa lista reflete um gosto pessoal e não diz respeito a nenhuma obra específica, então vamos começar:

1. O príncipe oculto 
Quem não conhece a história do príncipe (ou princesa) que, após a morte dos país, se protegeu no anonimato, misturado a plebe até o dia em que alguém lhe fala de suas origens e ele passa a lutar pela sua herança. O príncipe oculto é sempre nobre, leal e honesto, como se tudo isso fosse uma característica genética que o valida como futuro governante e herói da nação. A história é um clássico mitológico, bíblico, literário e cinematográfico e se você estiver escrevendo uma história assim, pare agora e comece de novo. 

2. A guerreira de espadão 
Se o seu personagem principal é uma guerreira ruiva de biquíni de metal usando uma espada gigante, existe 99,9% de chance de você ser um rapaz que precisa de uma namorada. Sério. Deixe esse personagem de videogames de lado e concentre-se em uma heroína de verdade. Sim, a mulher sexy e bad-ass também é um clichê ambulante, mas já que você quer escrever uma personagem desse tipo, seria bom escapar dos apelos visuais para atrair seus leitores. Quem é essa mulher? Pelo que ela luta? Como ela se veste? Não, não tem justificativa cultural para ela estar lutando com um biquíni de metal, exceto uma forma bizarra de suicídio. O cinema e a literatura vêm sendo recheadas de mulheres guerreiras com a personalidade de um pires, não faça isso com seus leitores de novo. 

3. O senhor das trevas 
Em algum lugar em uma terra sombria, tem um castelo sombrio, onde vive um lorde sombrio que controla um exército sombrio. Cujos objetivos quase que invariavelmente é a dominação/destruição do mundo. Se eu acabei de descrever seu antagonista, entenda: eu escrevi mais da metade dos antagonistas da fantasia e provavelmente todos os da alta fantasia. Toda vez que eu leio uma história e encontro o senhor das trevas, sinto na alma a preguiça do autor em desenvolver o personagem, mas calma. No fim, tudo é uma questão de motivação. Classificar o senhor das trevas como a encarnação do mal que precisa ser combatido é só uma forma de fugir do trabalho que dá encontrar as motivações para ele agir dessa forma. O lado bom é que se você encontrar uma motivação forte o suficiente para o lorde das trevas agir como antagonista dos seus heróis, você terá uma história muito mais forte. Minha dica é: para criar o antagonista, gaste o dobro do tempo que você levou para criar o protagonista. Ele é quem vai colocar a história em movimento. 

4. A garota em perigo 
Gente, chegamos ao século XXI, as mulheres estão nas ruas protagonizando a própria história. Ninguém aguenta mais a donzela indefesa que fica sentada na cela esperando o herói vir salvá-la. Piora um bocado quando ela é a única garota da história e só aparece como objetivo/prêmio do herói. Aqui vale de novo aprofundar a personagem, tirá-la do genérico e leva-la ao original. Ajuda para caramba se ela tiver ações com impacto real na trama da história. Faça o teste, se você puder substituir a garota em perigo por um objeto inanimado sem mudar muita coisa na história, fique com o objeto inanimado. Sério. Ninguém precisa de uma personagem ocupando o lugar de uma cadeira. 

5. A profecia do escolhido 
Muitas vezes o príncipe oculto é também o escolhido da profecia, mas nem sempre. Se seu herói foi escolhido pelas forças divinas para encarnar a profecia e salvar o mundo, eu espero que ele morra de forma patética. Talvez esse seja o clichê que eu mais odeie em toda a lista e um dos poucos que me faz ter vontade de desistir de prosseguir com a história. A profecia é outro artifício preguiçoso do autor para colocar a história em movimento. É genérica, batida e bastante monótona. Parece familiar? Pare ai mesmo. Ninguém merece ver essa história de novo. 


6. O herói sem passado 
Outro caso de preguicite do autor. O personagem surge adulto no meio da ação e ninguém nunca sabe nada sobre o passado dele. O mistério pode parecer sedutor, mas a gente sabe que na verdade o autor teve preguiça de pensar em uma história para ele, sua família e os primeiros anos de sua vida. Personagens com amnésia e órfãos entram aqui, no lodo da falta de imaginação. Gaste uns minutos pensando na infância do personagem, em como ele cresceu, qual foi a sua formação, o que ele gostava de fazer, o que era obrigado a fazer, quem foram seus familiares, quem eram seus amigos, como era a casa onde ele viveu. Gaste um tempo transformando esse pedaço de papel sem graça em alguém que respira, anda, se apaixonou, bateu e apanhou. Não poupe sua história de cicatrizes, elas o tornarão único. 

7. O exército monstruoso 
Todo mundo sabe que os monstros são do mal e os heróis são sempre lindos. O exército do senhor das trevas tem que ser monstruoso e genérico, para ser decapitado sem a menor pena pelo belo príncipe em seu cavalo branco. Alguém já se perguntou por quê? Exércitos monstruosos, ou soldados genéricos com mascaras sem rosto, são uma forma de desumanizar o inimigo e torna-lo indigno de piedade. Esse mecanismo é usado no treinamento militar ao redor do mundo inteiro, criando uma barreira natural entre os exércitos. Essa massa uniforme de guerreiros sem valor são como o mingau mais sem graça que você pode usar em uma história. Toda guerra tem dois lados e ninguém se enxerga como o vilão da própria história, então pense no que faz os seus exércitos lutarem. Transgrida as questões estéticas e faça um herói feio, um vilão apaixonante, um exército bonito e orgulhoso que luta por uma causa aparentemente justa. Humanize seus monstros. 

A verdade é que essa lista poderia ser muito maior. O velho mago sábio, o negro místico, a Inglaterra genérica, o catolicismo disfarçado, etc. Não acho que a presença de qualquer um destes clichês fará a sua história imprestável, mas você pode ter certeza de que vai precisar se esforçar duas vezes mais para me conquistar se um destes aparecer na sua história. Não é preciso muito para fugir das histórias comuns, as vezes a dificuldade fica em identificar onde estamos repetindo velhas histórias, se este for o caso, espero mesmo ter ajudado. 

E vocês, o que não aguentam mais ver em histórias de fantasia? 

[Artigo via]: Chamas do Império

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