15 de fev de 2018

[REFLEXÃO]: UMA CASA DE CHÁ

Com tantas pessoas no mundo, estou à procura de um abrigo especial. Vem-me à cabeça uma casinha pequena cuja função é abrigar uma cerimônia de chá. Essa casa escolhe o próprio lugar e se ergue sem diretrizes. Ela vai se fazendo com autonomia, usando a força de vontade de seu futuro dono, e fica onde escolheu ficar. Não há pressa de chegar ao fim, pois se houvesse se perderia a preciosidade da construção. Esse processo é impreciso, uma vez que para se chegar até a casa o caminho é irregular. E é também invisível, pois só se sabe que ela existe quando a buscamos, com um olhar livre de lembranças antigas, entre as árvores que despontam no chão.

Citei o chá porque se trata de uma bebida diferente. Tomar chá nessa casinha é mais do que beber uma infusão de ervas. É poder saborear, por meio de um ritual cuja raízes estão na cultura ocidental, os prazeres e delícia de uma vida. É fazer da sua simplicidade uma cerimônia.

Vou me explicar: quando paramos um momento, por menor que seja, para tomar chá, saímos de nossa vida diária, aquela que não mostra o seu significado e fica eternamente na superfície. Mergulhamos na fumaça quente que sai da xícara e revemos todos os processos pelos quais passamos naquela vida íntima, peregrina, guardada com cuidado.  Adentramos em uma busca pelo silêncio interior. Nossas sensações se regulam com o farfalhar das folhas e vamos apreendendo todas as etapas pelas quais passamos até chegar ali, àquela casinha, tomando aquele gole de chá especial.

Os passos foram tortuosos, cheios de altos e baixos, mas descobrimos que eles estavam reservados para servir de material de construção àquela casinha de chá  que todos temos, mesmo que não a conheçamos. Em nossa peregrinação, ela é preciosa por nos proteger do resto do mundo enquanto estamos ocupados com outras coisas. Ainda que sua construção esteja no início, já oferece abrigo. Essa proteção é, claramente, diferente daquelas que os adultos dão às crianças enquanto brincam, porque foi descoberta por nós e suas raízes se firmam na proteção que nós mesmos podemos dar a ela. Assim, essa casa tem força e se faz por vontade própria, e diversos elementos podem ser utilizados em sua construção.

E, enquanto se constrói  algo que nunca deixa de acontecer , a casinha propicia momentos de encontro. Encontro com a própria simplicidade de viver, com as próprias festas internas e com os próprios rituais. Ela nos acolhe e nos diz que estamos vivendo bem  seja lá qual for o modo como dirigimos nossa vida  e continuaremos nos construindo  onde quer que estejamos enraizados. Então, aquele amor incondicional que tanto buscamos é sentido como uma brisa ligeira que passa pela janela. Ali percebemos que temos um belo jardim interno, que necessita ser respeitado e cuidado com dedicação.

Esse espaço pode ser construído com a ajuda de muitas ou de poucas pessoas. Ele nunca se faz sozinho, nem está dado assim que nascemos. Ele é como uma bolha de sabão que, quando soprada, ganha vida e forma.

Uma das pessoas que podem nos ajudar a encontrar o lugar da casa, a firmar suas raízes e a deixá-la se construir é um homem ou uma mulher especial. Essa pessoa pode ser uma vizinha anciã, um moço na feira que escolhe maçãs ou uma fiandeira. Refiro-me a todos aqueles seres intuitivos que passam por nossa vida, que caminham e conversam conosco pelo jardim e descobrem com a gente onde a casa vai emergir. Para chegar até ela temos muito trabalho, pois há um caminho certo, livre, que nos conduza ao local. Quase sempre as trilhas para o mundo interno são tortuosas e difíceis de ser ensinadas, porque não vêm prontas. É com a intuição, iluminada como uma tocha, que podemos caminhar por ali.

Aos poucos, um encantamento surge desse processo e a casa de cada um vai tomando forma própria. Para finalizar, gostaria de descrever ao leitor a minha casa de chá, para que também ele possa sair à procura da sua. Eu a vejo no alto de um morro, num jardim desvendado por ela mesma. Foi preciso passar por diversos obstáculos para chegar até ela, e lá encontramos um silêncio absoluto. A sala é simples, toda feita de madeira, com almofadas que permitem a qualquer um sentar-se para tomar chá e meditar. Quem entra em contato com essa casa é invadido por uma sensação de paz que aquieta todo o torvelinho de imagens mobilizadoras que nos assaltam de vez em quando. E ali se fica parado por um tempo, escutando apenas um movimento de um inseto que, quando pousa em nós, nos instiga a sair voando mundo afora...

Nenhum comentário

Postar um comentário