11 de abr de 2015

Conhecendo Deus - por Eduardo Antonio Damasio da Silva

Zani, 23 anos, fugitivo da penitenciária do estado, havia, de carona em carona, viajando trepado nas carrocerias de caminhões, chegado àquele destino: uma zona de agricultores. Perdido, descansando à sombra de uma árvore, ao avistar um garoto passar, perguntou-lhe:

— Para onde você está indo?
 Para casa.  respondeu Gros.
 Há o que comer?  perguntou ele.
 Abacaxis.
 Abacaxis?
 É o que posso lhe servir.

Erguendo-se, demonstrando assim ter aceitado a oferta, passaram a caminhar juntos. Contando-lhe Gros que seus pais haviam sidos assassinados, esclareceu que morava sozinho e tomava conta da plantação de abacaxis, herança deixada por eles.

 Amanhã haverá colheita. A produção é vendida para uma indústria de sucos.  disse ainda Gros.
 Pagam na hora?
 Sim. Tão logo os dois caminhões estejam carregados.

A casa era de alpendre e caiada. Zani, observando a plantação, saboreava o segundo abacaxi.

— ... Qual a sua idade?  perguntou ele.
 Nove anos.  respondeu o infantil Gros.
 Amanha haverá colheita, pagam na hora e bem.
 Mantinham-nos por dois anos.

Zani, após limpar a boca, disse-lhe, malicioso, que, se desejasse, ficaria para ajudar.

 Dormiria no quarto de hóspedes.  assim o inocente Gros selou a proposta.

Às vinte e uma horas, fizeram a última refeição do dia: café preto e pão seco. Foi então que Gros, sentado à mesa, disse a Zani que não sabia distinguir o que era certo e o que era errado.

 Como assim?  quis saber Zani.

 Desde que me entendo por gente, tudo o que os meus pais fizeram foi trabalhar e juntar dinheiro. Café preto e pão pela manhã e à noite. E, ao meio-dia ,arroz com carne salgada e frita. Estou vestido no meu único short. Tenho apenas uma cueca, uma calça, duas blusas e um par de sandálias. Foram assassinados na capital por estarem sem dinheiro e o dinheiro por aqui ficou.
— ... Por aqui? Onde?  inquiriu Zani mais que curioso.
 Escondido em algum lugar da casa. Já procurei, mas não encontrei. Tenho planos em mente para ele. Um canteiro de mudas e uma bicicleta facilitariam muito as coisas.

Zani, pensativo, correu as vistas em volta da sala e, em dado momento, sorriu internamente.

Às vinte e duas horas, resolveram se deitar.



 Aqui é o quarto de hóspede, mostrou-lhe Gros. Havia uma cama sem forro, um travesseiro e um armário.
 Costumo dormir rapidamente.  disse Zani.
 Eu também. No armário há um cobertor, enfatizou Gros despedindo-se. Zani se deitou, porém, ao invés de tratar de dormir, ficou meditando. Duas horas depois se levantou. A casa estava às escuras. Ao andar nas pontas dos pés pelo corredor escutou:
 Alto lá! Voltando-se, viu um feixe de luz.
— ...!
 Para onde pensas que vai?! Pedra é o que existe no teu peito? É isso o que chamam de vitória? E recorrem a mim quando em dificuldade se encontram, lembra?  Zani, ao fugir da penitenciária, correra sob disparos das sentinelas, clamando por Deus.
— ... Não iria fazer mal ao garoto, explicou Zani, assustado.
 Como assim?!
 Acredito ter localizado o dinheiro deixado pelos pais dele.  explicou.
 Apanharia e o entregaria? ...
 Não?! Iria trair a confiança de alguém que confiou em ti? Que lhe matou a fome e lhe ofereceu abrigo?!
— ... Senhor!
 Em verdade vos digo: se nele tocar num único fio de cabelo, sem que a intenção não seja a de carinho, engrossará o rol dos maus. Conhecerá o desconhecido. A morte retardará e, despercebidamente, por sobre pedras aquecidas, serão os seus dias.
— ...!

A luz desapareceu. Zani retornou para o quarto e se deitou.

Ao despertar com o dia clareando, o cheiro de café invadia-lhe as narinas.

 Dormiu bem?  perguntou Gros.

— ... Dormi...

Zani, ao sentar-se à mesa, correu as vistas em torno da sala e perguntou o que havia no embrulho, sobre a parede, as quais não atingiam o telhado. Gros, após olhar, pediu-lhe para que o carregasse. Assim feito, ao apanhar o embrulho e abri-lo, seus olhos brilharam.

 É o dinheiro, Zani!...

Igual a um garoto, que era, Gros delineou inúmeras finalidades para a importância encontrada.

 Você é o máximo, Zani!

No entanto, às sete horas, os dois caminhões com homens prontos para a colheita chegaram. Gros e Zani juntaram-se a eles e passaram a trabalhar .Em uma das viagens, Zani, com um imenso cesto na cabeça, abarrotado de abacaxis, e Gros com um cesto menor, perguntou ao garoto quem era a conferente do caminhão azul.

 É Briza. Filha do motorista.
 Bonita!
 Lindona! É minha amiga. Sempre que pode, traz uma marmita para mim.Hoje almoçaremos bem... Não tira os olhos de você.
 É verdade?!  perguntou Zani.
 A mais pura.

Na hora do almoço os três se abrigaram na casa.

 Gros contou-me que você fará uma revolução aqui.  conversou Briza.
 Gros ditará e eu executarei. Já conversamos a respeito.  respondeu Zani.
 Roupa e alimentação decentes, construção de um viveiro de mudas e uma bicicleta.
 Comprarei duas bicicletas, frisou Gros.
 Cuidaremos da propriedade. Ele, inclusive, voltará a estudar.  disse Zani, animado.

Ouvindo a conversa, Briza o olhou, acentuando a simpatia nutrida por ele. Colocou a refeição das duas marmitas em uma tigela e dividiu para os três. Gros protestou dizendo que a marmita dele dividiria com Zani.

 Assim ficará melhor. – disse Briza Zani, por sua vez, sugeriu que fizessem uma oração.
 Oração?!  inquiriu Gros.
 Sim. Faremos uma oração.

Uniram as mãos e Zani disse:

 Senhor, que a compreensão faça parte de nossos dias.
 Amém!  replicou Gros.
 Que assim seja, enfatizou Briza.

Texto via: Curtas Exposições

Nenhum comentário

Postar um comentário