4 de set de 2015

[Artigo]: Prostituição - por Gustavo Araujo

Excelente artigo! É claro que há exceções. Uma triste realidade a qual passei a conhecer tempos atrás, quando publiquei o meu primeiro livro. Vale a pena conferir:

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Não trago boas notícias. Pelo menos não assim, à primeira vista. Refiro-me a você, que escreveu um livro recentemente, mas que não possui amigos influentes ou uma boa soma em dinheiro para divulgar a sua obra.

Repare que isso não tem muito a ver com a qualidade da sua escrita. Bons ou ruins, o que se vê é uma quantidade enorme de livros publicados todos os meses. Mesmo aqueles que conseguem publicar por grandes editoras – e que caem na ilusão de uma fama efêmera e pasteurizada – não terão garantida muita propaganda. A não ser, claro, que decidam tirar recursos do próprio bolso.

Sabemos que grandes editoras não estão preocupadas com a qualidade do que se escreve, mas com o potencial de venda da obra. Por isso, se escrita por alguém famoso, tanto melhor, pouco importando o conteúdo. Isso é fato notório. Todo mundo que escreve tem plena noção disso. Editoras grandes, assim como livrarias grandes, funcionam como empresas, visando lucro. Não há espaço para quem não é conhecido. Ponto.

O problema é que esse sistema acabou contaminando quem realmente poderia ajudar o escritor independente, ou aquele que publica por uma editora pequena. Falo dos blogues literários, tanto os tradicionais, hospedados no blogger, no wordpress ou congêneres, como dos v-logs que se multiplicam no YouTube.

Sabendo do poder de sedução dos blogueiros e vlogueiros, as grandes editoras estabeleceram parcerias com os mais populares. Mandam-lhes livros em troca de resenhas. Livros, claro, delas próprias. O resultado é que esses canais de comunicação acabam falando somente dos blockbusters literários – normalmente livros rasos e bobocas dedicados a adolescentes idem.

A você, autor novo, que tem a coragem de escrever sobre algo diferente e que procura seu espaço de divulgação, digo que 90% dos blogues e vlogs mais acessados do Brasil jamais lhe abrirão as portas. 

Falo por experiência própria.

A primeira tiragem do “Pretérito Imperfeito” foi consumida por amigos, parentes e pelo pessoal que me conhece do Entre Contos. Foram poucos os desconhecidos que adquiriram a obra “de ouvir falar”. Por conta disso, saí à cata de oportunidades. Mandei e-mails, mensagens pelo fb, cartas, sinais de fumaça e tambores a diversos blogueiros e vlogueiros. Com alguns eu tinha certo contato, com outros, não.



Os que me responderam – sim, porque a maioria nem se dignou a isso – exigiram uma contraprestação financeira para falar do meu livro, que iam de R$ 200 a R$ 600,00. É a “prática do mercado”, alguém diria, mas eu achei o fim da picada, algo como um convite à prostituição: pague bem que eu falo (bem) do seu livro. Mais ou menos assim. Naturalmente esse pessoal não cobra de autores de livros famosos e no entanto valem-se da fama alheia para conseguir audiência. O mínimo que poderiam fazer seria dedicar certo espaço a autores nacionais, de pequenas editoras e independentes. Assim é que estariam prestando um favor à literatura nacional e não agindo como lugares-tenentes de quem só está atrás de dinheiro.

Ah, mas não parou por aí. Volto a falar de minha própria experiência. O relativo sucesso do Entre Contos no submundo literário fez com que um e outro jornalista chegassem até mim e, surpreendentemente, solicitassem entrevistas. Ótimo, fiz isso sabendo que seria bom para divulgar o site e meus livros.

Talvez por isso uma agência literária de renome nacional tenha me contatado. Após elogiarem o trabalho do Entre Contos e tal, sugeriram uma parceria comigo, autor. Divulgariam meus livros, sobretudo o “Pretérito Imperfeito”, em mídias impressas de âmbito nacional. Conseguiriam resenhas nos maiores jornais do país – Folha de S. Paulo e O Globo, para citar alguns – e, de quebra, me incluiriam no roteiro de feiras literárias Brasil afora. De repente, até mesmo uma entrevista no Jô. Para reforçar a credibilidade da proposta, me indicaram seu site e, principalmente, os autores que já figuravam como clientes. De fato, havia muita gente conhecida por lá – escritores que a gente vê, volta e meia, dando entrevistas aqui e ali, cujos livros, mesmo horríveis, são resenhados e analisados amiúde por críticos que se dizem sérios. E claro, por blogues e vlogs de aluguel.

Naturalmente, tudo isso tinha um preço. Digo aqui sem nenhum pudor: R$ 7.500,00 – sete mil e quinhentos reais, uma pechincha, “special price for you”, por três meses de parceria. Eis o que separa o autor “famoso” daquele que se esforça para escrever algo decente e que dificilmente ultrapassará seu círculo de amigos.

Detalhe interessantíssimo: a agência que me fez a proposta sequer leu o meu livro. Ou seja, acenaram com um mar de possibilidades que em tese me trariam certo reconhecimento – desde que eu estivesse disposto a pagar por isso – sem ter lido uma palavra do que escrevi.

Fiquei tentado a aceitar? Fiquei. Sei de amigos que toparam a ideia e que estão aí, com o nome chegando à praça. Eu poderia, então, estar “nadando de braçada”? Poderia. Mas – você pode até achar piegas o que vou dizer, pode até me achar pretensamente ingênuo – eu não achei que seria a coisa certa. É por causa desse tipo de atitude, que pode ser vista como egoísta e mercenária, mas que também pode ser vista como “a regra do jogo”, como “é-assim-que-as-coisas-funcionam”, como “ou-é-desse-jeito-ou-não-tem-jeito”, que a realidade literária brasileira é uma verdadeira piada.

Se eu me entregasse à miragem, poderia até dar uma entrevista-fake para o gordo, mas no fundo saberia que tudo foi arranjado, que nada tem a ver com a qualidade do meu livro. Cedendo, eu estaria contribuindo para a manutenção do status quo de merda em que vivemos, em que aqueles que têm grana para investir – as subcelebridades e os autores de ocasião – têm seus livros ridículos expostos nas prateleiras das grandes lojas, ostentando o selo de grandes editoras.

Preferi me recolher ao meu mundo, permanecer cercado por gente que escreve porque gosta. Se meu livro não terá a divulgação que eu acho que ele merece, então azar. O que interessa é que eu não sucumbi a esse mercantilismo retrógrado, não entreguei meu livro a um garoto-de-quinze-anos-que-considera-Percy-Jackson-o-ás-da-escrita só porque ele (o garoto) tem cinco mil visitas por dia em seu vlog. Não aceitei pagar para ter meu livro “lido” por um crítico de aluguel. É a regra do jogo? Pode até ser, mas não é a do MEU jogo.

Por isso agradeço aqueles que se dignaram a ler e resenhar meu livro por vontade própria. Sim, há blogueiros sérios, felizmente, ainda que sejam pouquíssimos.

De todo modo, prefiro me recolher ao Entre Contos. Aqui faço as resenhas de meus amigos escritores de coração, além dos livros que gosto, sem que ninguém me imponha nada. Aqui meus textos são lidos, comentados e criticados sem que eu tenha que pagar por isso. É aqui que o autor independente tem voz, é ouvido e levado a sério.

Você pode me chamar de ingênuo, idealista, o que for. Mas para mim, é essa a essência da literatura. 

Via: Entre Contos

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