2 de nov de 2015

[Texto]: Singular

Tinha poucos e sinceros amigos, carreira mediana, sem maior destaque, e dificilmente se aventurava em relacionamentos que comprometessem sua independência. Com sua timidez atávica, ela parecia um caso irremediável de solidão por opção.

Seus contemporâneos estavam todos casados ou morando com alguém àquela altura, até aqueles que antes se declaravam solteiros convictos. Reuniam-se duas ou três vezes por ano, mas esses encontros estavam se tornando cada vez mais penosos, talvez pela incompatibilidade de assuntos, talvez porque se sentia diferente. Os encontros, antes festivos, se tornaram melancólicos exercícios de fingimento. 

Oscilava entre extremos: nada era bom o suficiente ou tudo era acima de suas capacidades e realmente não se encaixava. No fundo, demonstrava uma total incompatibilidade com a vida. Questionava seu papel no teatro todo e não conseguia respostas. Às vezes chegava a pequenas certezas logo desfeitas pela sua rigidez. Achava que era apenas mais uma. Passaria uma vida em branco, sem fazer falta ou se destacar, limitando-se a existir como uma engrenagem qualquer.

Nas raras vezes em que conseguiu descrever o que sentia a algum amigo, obteve sempre uma entre duas reações. Ou levava broncas por ser pessimista demais e não procurar ser feliz, ou ouvia conselhos nos melhores moldes dos livros de autoajuda. A tal perseguição à felicidade a deixava incomodada demais, às vezes até furiosa. Não queria correr atrás de algo tão fugaz e se frustrar na maior parte do tempo.

Em casa não tinha animais ou plantas, nada que exigisse sentimentos ou obrigações. Poucos móveis, roupas ou comida na geladeira. Seus arroubos eram pizza congelada, Coca-Cola e sorvete de picolé aos finais de semana. Dormia nos feriados e o único hábito era devorar o jornal diariamente sempre acompanhado por café instantâneo, pão dormido e margarina com sal.

Na adolescência, houve um momento em que chegou a pensar em ir para um convento, mas a vida coletiva a afastou da ideia.

Filha única, neta única, todos mortos, tinha a tranquilidade de não precisar conviver com a família. Mesmo em momentos tristes, não era da sua família que sentia falta e sim dos instantes em que sua vida fez sentido, quando defendia suas convicções, no final da adolescência. Naquele tempo teve voz e ideias próprias. Achava que a saída de grande parte dos problemas era como na música Casa no campo. Uma bobagem juvenil que volta e meia a atraía.

Nos últimos tempos, pelejava para encontrar algum sentido na vida. A música que martelava dia e noite na sua cabeça era outra. Um refrão, uma pergunta:

— What do I stand for?

Coisa mais besta ser em inglês, pensava. Mas não conseguia uma tradução perfeita para aquilo que a agoniava. Se não achasse a resposta sabia que em pouco tempo perderia a voz, a cor e a respiração. Limitaria-se a vegetar como uma samambaia em varanda de tia idosa.

Afinal, o que realmente fazemos por aqui? Será que o objetivo é somente crescer e multiplicar, viver uma experiência padronizada? O que é fazer a diferença? O que seria levar uma vida feliz?

Sabia que dificilmente conseguiria respostas.

Voltou a pensar em seu sonho juvenil. A solução para tudo poderia ser transformar sua existência em algo completamente diferente, menos artificial do que aquela decorrida entre o apartamento, o bairro e o trabalho. Não que isso fosse um sinônimo da tão irritante felicidade de que todos falavam sem parar. Tinha a certeza de que a tal felicidade era algo inventado, algo criado para que todos se ocupassem em persegui-la, deixando de lado os questionamentos.

Nada a prendia. Poderia ir embora da cidade, partir para o campo.

Começou a se perguntar como seria estar em um lugar novo? De novo se achava besta por pensar em inglês, mas não buscava “turning points”. O que queria era encontrar uma situação em que não se sentisse tão insegura e frustrada. Trabalharia na sua própria pequena propriedade. Aos poucos, desenvolveria apego a animais e plantas. Gente demoraria ainda um pouco mais. Não perseguiria a felicidade e sim a vida simples, direta e mais produtiva do que relatórios cuspidos pela impressora. Poderia tranquilamente existir sem ser o centro de nada, sem se incomodar com olhares e pessoas, conviver com a simples certeza de que as coisas às vezes andam, às vezes não. Agora sim, sentia uma ponta de alegria. Do seu jeito, seria única.

Via: Blog Tudo Sobre Tudo

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