9 de jun de 2017

GPS nunca mais — por Ana Costa

Peguei um carro por aplicativo e o motorista era simpático e falante. 
 Boa tarde, meu nome é Fernando, a senhora prefere indicar o caminho ou posso seguir o GPS? 
 Apesar de eu não confiar em GPS, pode seguir, por favor. 
 Não tenho o que reclamar do meu, até agora ele me levou a todos os lugares sem nenhum problema. Mas conheço algumas histórias engraçadas sobre GPS. 
 Pois vou lhe contar mais uma para sua coleção, só não pode sorrir  falei naturalmente. 
  Pode contar. Prometo não sorrir  assentiu demonstrando-se curioso. 
— Sou uma pessoa totalmente confusa para me localizar espacialmente e tenho dificuldade de identificar a lateralidade esquerda e direita. Por exemplo, ao entrar numa loja, quando saio não sei qual sentido seguir, perco totalmente a noção de espaço, não decoro nome de rua, muito menos os caminhos. Por estar cansada de me perder comprei um GPS. O batizei de Bob, com letra maiúscula mesmo. Em minha opinião, o Bob seria a salvação. 
O motorista interrompeu para dizer que o GPS dele se chamava Filó. 
Continuei. 
— Quinta-feira passada precisei ir a ao dermatologista, no bairro do Morumbi. Já fui lá algumas vezes, de carona ou táxi. Mas estava em outro momento, eu tinha o Bob, poderia ir para onde quisesse, sem medo. O Bob era preciso e um tanto peculiar na maneira de orientar: “siga em frente, vire à esquerda, vire à direita, siga em frente”. Lá fui eu, seguindo a voz sexy do meu melhor amigo de infância. Eu, cheia de emoção; o Bob, cheio de razão: “Siga em frente, siga em frente, siga em frente”. Eu seguia confiante e desavisada. Não era a primeira vez que ia naquele endereço, razão pela qual percebi que não estava no caminho certo. Mas por alguma razão o GPS dizia para “seguir em frente”. E o prédio estava ficando para trás. Eu o enxergava de longe e dizia: "Não é por aí, Bob!". Pra onde você está me levando? Estamos no caminho errado! E a “porra” do GPS insistia: “Siga em frente”! Posso garantir que ele era birrento e tinha vida própria. Sem saber o que fazer, parei e perguntei ao senhor que passava na calçada, qual caminho deveria tomar para chegar naquela rua. Ele gentilmente explicou: 
 Segue até aquele posto de gasolina, entre à direita, terceira esquerda e segue as placas de indicação. Não tem erro. 
Agradeci e fui. 
— A voz do senhorzinho martelava na minha mente: “Entre à direita, terceira esquerda e segue as placas de indicação. Não tem erro”. Dei partida no carro. “Entre à direita, terceira esquerda e segue as placas de indicação. Não tem erro”. E o bob, agora ex-amigo  com letra minúscula mesmo, o status foi rebaixado , já foi dizendo: “siga em frente”! Foi a gota d’água que faltava. Tive um ataque de fúria e no primeiro farol vermelho, desci do carro com o bob na mão, joguei-o no chão com toda força e pisei até esfarelá-lo. 
Fernando dava gargalhadas. 
 Você prometeu não sorrir. 
 Ninguém gravou?  Mais sorrisos. 
 Nem desconfio. 
 Se vejo uma cena dessa, gravo e jogo nas redes sociais. 
 Você é mau. 
 Comprou outro? 
 Não. GPS nunca mais. 
— Ainda bem que ouvi a Filó dizer: “Você chegou ao seu destino”.

[Texto de]: Ana Costa
[Blog da autora]: AQUI

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