18 de jun de 2017

Pais e Filhos — por Simone Pesci

O dia estava ensolarado. Em seu quarto haviam estátuas, cofres e todas as paredes estavam pintadas, uma arte particular, feita por uma garota aparentemente feliz. 
Ninguém sabia o motivo que a levou cometer tal desatino, jogando-se da janela do quinto andar. Aquilo, aos olhos alheios, não era fácil de se entender.  
 Dorme agora! É só um vento lá fora  a mãe sussurrava ao lado do caixão. 
Ela só queria colo, às vezes pensava em fugir de casa, e sempre perguntava aos mais próximos:
 Ei, posso dormir aqui com você?
Ela tinha medo e muitos pesadelos, e por tais motivos permitia-se dormir depois das três, empenhando-se num tempo mais curto de sonhos ruins. 
 Um dia, quando tiver um filho, darei a ele nome de santo  perdeu-se em um de seus anseios.  Escolherei o nome mais bonito...  seu espírito a encarava dentro do caixão.  
Tristeza.
Desesperança.
Loucura.
Sentimentos intensos que a deixaram espiritualmente desvairada.
Ela sabia que era preciso amar as pessoas de forma diferente, ou seja, como se não houvesse o amanhã. E que se parasse pra pensar, continuaria transloucada. 
Ela queria saber por que o céu era azul. 
Ela queria explicações sobre a fúria do mundo.
Ela queria saber por que tivera como missão fazer o papel dos pais, quando deveria ser a filha. 
Ela morava com a mãe.
Ela morava com o pai.
Ela pedia a todos para que a visitassem.
Ela se cansou e passou a morar na rua.
Ela não tinha ninguém.
Ela passou a morar em qualquer lugar.
Como uma andarilha, morou em tanta casa que nem se lembrava mais. E, em alguns momentos insanos, pensava morar novamente com os pais.
Ela era a gota d'água.
Ela era o grão de areia.
Ela vivia repetindo que os pais não a entendiam, mas era ela que não entendia os pais.
Ela culpava os pais por tudo, e sempre achava um absurdo.
"Eles são crianças como eu!", perdia-se em devaneios.
Já ciente de sua condição espiritual, permitiu-se questionar-se:
"O que seremos quando crescer?"
Já não era tempo de pensar no futuro.
Ela não era mais a gota d'água e nem mesmo o grão de areia. 
E ainda culpava a si e aos pais.
 Dorme agora! É só um vento lá fora  agora era o pai quem dizia as palavras.
O caixão se fechou.
E ela continuou a questionar-se sobre o céu azul e a fúria do mundo.  

[Texto inspirado na letra da canção]: Pais e Filhos, da banda Legião Urbana.

2 comentários

  1. TÔ MORTA COM ESSE TEXTO!
    AMEEEEEEEEEI!

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    1. Amigaaaaa, é mais forte do que eu! Escutar Legião Urbana me dá vontade de escrever. S2 Fico feliz que gostou do texto. \o/\o/\o/

      Beijossssss

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